Sebastião saiu de casa todo contente porque soube que hoje receberá um aumento de salário. A caminho do trabalho passou pela padaria, proseou um pouco com seu Augusto que lhe contou sobre o assalto que seu filho sofreu, quando vinha chegando em casa na noite anterior. Seu Sebastião aproveitou pra vomitar toda a sua indignação contra esses marginais que em vez de trabalharem, passam a vida a roubar inocentes, e que as autoridades nada fazem pra defender o cidadão. Mas apesar de toda ira que sentia ao saber que um pobre coitado tivera sido roubado, seu Sebastião, alem de senso de justiça, também mantinha a compaixão, e ficou todo entristecido quando a dona esfarrapada lhe pediu uma esmola, e pondo a mão no bolso furado viu que não tinha nem um tostão. E antes que o cansaço daquele dia lhe tirasse a coragem, ele passou na capela pra rezar um pai nosso e agradecer pelo pão, que com muito suor e lágrima conquistava todo dia, e não se dava ao luxo de desistir e nem esmorecia. E depois do dia duro e do salário merecido, vinha ele do trabalho quando um amigo chegado lhe convidou a base de grito, bem no meio da rua, dizendo que no boteco ao lado a primeira rodada era de graça e que o violeiro era bom. Seu Sebastião que não gosta de viola, mas é amante da cachaça, atravessou a rua como atravessava a vida, com os passos firmes de quem já não se surpreende com as voltas que o mundo dá. E foi lá, no meio da terceira rodada que seu Sebastião deu mais uma rasteira no destino. De arma na mão e olhar gelado, o carrasco não tinha mais que 17 anos, e ao ouvir o som dos disparos, sorria como se aquilo fosse música. Foi só no hospital que o velho Sebastião soube que tinha sido confundido com um homem que tinha agredido a esposa e era padrasto do rapaz, que disse ter cometido o engano por excesso de raiva e de pó.
Imagem de Vladimir Kush
